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Casas Bahia (BHIA3): vale a pena investir depois do pedido de recuperação judicial?

As ações da varejista caíram mais de 78% em 2026 e passaram a ser negociadas abaixo de R$ 0,50 após o grupo pedir recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas. Entenda os números por trás da crise e o que analistas dizem sobre o papel.

Marina Costa

Editora de Economia

7 min de leitura

Ilustração de um gráfico de ações em forte queda ao lado de uma fachada de loja de varejo

As ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) acumulam queda superior a 78% em 2026 e passaram a ser negociadas abaixo de R$ 0,50 depois que a empresa pediu recuperação judicial à Justiça de São Paulo, em agosto. No pedido, a própria companhia descreveu o momento como a 'pior crise financeira desde a fundação', em um cenário considerado ainda mais complexo do que o da reestruturação enfrentada em 2024. Diante disso, a pergunta que normalmente abriria uma análise de investimento — vale a pena comprar a ação? — precisa ser tratada com um cuidado bem maior do que o habitual.

Os números por trás do pedido ajudam a entender a gravidade do momento. O passivo total do grupo soma R$ 17,3 bilhões, sendo R$ 16,4 bilhões em dívidas com credores quirografários, R$ 754 milhões em obrigações trabalhistas e R$ 154 milhões devidos a micro e pequenas empresas fornecedoras. No balanço do segundo trimestre de 2026, a companhia já registrava patrimônio líquido negativo de cerca de R$ 8,1 bilhões — ou seja, as obrigações superam o valor dos ativos —, além de um prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no trimestre, dezoito vezes maior que o prejuízo de R$ 555 milhões do mesmo período de 2025 (boa parte desse valor reflete ajustes contábeis extraordinários ligados à reestruturação, sem impacto imediato em caixa).

A crise não surgiu do dia para a noite. Mesmo com a receita crescendo 1,6%, a R$ 6,97 bilhões, o Ebitda ajustado caiu 9,4%, para R$ 518 milhões: o ganho de margem bruta foi anulado pelo aumento de despesas operacionais, incluindo comissões pagas a parceiros de marketplace. A companhia segue fortemente exposta a categorias de consumo discricionário e ao crédito ao consumidor, dois segmentos particularmente sensíveis aos juros altos — e já havia fechado 298 lojas e reduzido o quadro de funcionários em uma rodada anterior de reestruturação.

No mercado, a reação das casas de análise foi de cautela acentuada. O Morgan Stanley mantém recomendação underweight (abaixo da média do mercado), citando um resultado trimestral bem pior que o esperado. A XP Investimentos colocou recomendação e preço-alvo 'em revisão', apontando o risco de fornecedores restringirem prazos comerciais justamente às vésperas da temporada de fim de ano, período crucial para o varejo. Já o Itaú BBA encerrou a cobertura ativa do papel: a última recomendação publicada era 'market perform' (neutra), com preço-alvo de R$ 1,00 para o fim de 2027 — um valor já cauteloso antes mesmo do pedido de recuperação judicial.

Vale entender o que a recuperação judicial significa, na prática, para quem já tem ou pensa em ter ações da empresa: o processo organiza a renegociação de dívidas com credores sob supervisão da Justiça, mas o acionista não é credor. É comum que planos de recuperação incluam a conversão de parte da dívida em novas ações, o que tende a diluir fortemente a participação — e o valor — dos acionistas atuais. Somado ao patrimônio líquido já negativo, isso aproxima BHIA3 hoje de uma aposta especulativa de altíssimo risco em uma reestruturação bem-sucedida, mais do que de uma decisão convencional baseada em fundamentos. Este texto reúne dados públicos e a visão de analistas de mercado, mas não constitui recomendação de investimento personalizada: antes de qualquer decisão, especialmente em um ativo de risco elevado como este, o caminho correto é consultar um assessor de investimentos licenciado, considerando seu próprio perfil de risco.

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Marina Costa

Editora de Economia

Cobre política monetária, investimentos e finanças pessoais há mais de dez anos.

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